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Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância.

Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio d...

Nietzsche e a Educação




Nietzsche e a Educação:

Aos 24 anos Nietzsche se torna professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia, na Suíça..... (pág. 27, op. Cit.) Desde os primeiros anos de sua atividade como professor, sabe que não poderá suportar por muito tempo o mundo acadêmico, o enclausuramento em uma disciplina. Sua instintiva aversão pela especialização, pela cultura enciclopédica e livresca com que os professores pretendiam educar seus alunos, e sua ambição em ser mais do que um simples professor crescem a cada dia.....
Nietzsche despreza o sistema educacional que tem sob seus olhos. Esse sistema visa a promover o "homem teórico", que domina a vida pelo intelecto, separa vida e pensamento, corpo e inteligência. Em lugar de procurar colocar o conhecimento a serviço de uma melhor forma de vida, coloca-o em função de si próprio, de criar mais saber, independentemente do que isso possa significar para a vida. Assim, avesso á erudição acadêmica, o jovem professor Nietzsche sonha com um ideal de educação que o estudo dos gregos pré-platônicos lhe revelara, uma educação ancorada nas experiências da vida de cada indivíduo, em que "os modos de vida inspiram maneiras de pensar e os modos de pensar criam maneiras de viver". Em abril de 1870, escreve a Rohde: "Ciência, arte, filosofia crescem tão juntas em mim, que um dia parirei centauros"(Pág. 32 e 33, op. Cit.)


........ Poucos professores foram tão estimados pelos alunos quanto Nietzsche. Seu temperamento, suas maneiras, o charme de sua personalidade afável fascinava-os. Tinha o poder de entusiasmar os jovens para a disciplina que ensinava. Excelente professor, não visava ao simples acúmulo de conhecimento – pelo contrário, insistia no desenvolvimento do senso crítico e da atividade criadora de cada um. Incitava os alunos a exprimirem livremente suas opiniões, incentivava-os a fazerem suas leituras pessoais e as controlava freqüentemente. Não precisava castigar, porque punha para trabalhar mesmo os alunos mais relapsos. Tais elogios foram extraídos de relatos deixados pelos alunos de Nietzsche..... (pág. 51, op. Cit.)



Louis Kelterborn escreve em suas Memórias: "Minhas relações pessoais com Nietzsche duraram 10 anos, de 1869 a 1879.... Sua maneira de se dirigir aos alunos nos era absolutamente nova e despertava em nós o sentimento de nossa própria personalidade. Soube, desde o início, estimular-nos para que tivéssemos um maior interesse pelo estudo, talvez mais ainda de maneira indireta, pelo seu saber e pelo seu exemplo, do que de maneira direta, ao nos declarar, por exemplo, que todo homem deveria pelo menos uma vez na vida se dar ao trabalho de consagrar ao estudo um ano inteiro, fazendo da noite o dia, e que esse ano tinha chegado para nós.

Ele não nos considerava em bloco, como uma classe ou um rebanho, mas como jovens individualidades, .......... Durante a conversa o professor Nietzsche procurava ouvir mais do que falar; através de perguntas estimulava seu interlocutor a exprimir livremente suas opiniões, mesmo quando se tratava de um de seus alunos. (pág. 51, 52 e 53 - op. Cit. )


Outro aluno Traugolt Siegfried conta suas experiências durante seu convívio com Nietzsche: "Cada um de nós tinha como ponto de honra estar à altura das exigências de Nietzsche, e aquele que, por preguiça ou por ignorância, o decepcionava recebia a censura de seus colegas.... Sua gentileza e sua atenção encorajavam os alunos a trabalhar e os incitavam a se exprimir livremente.(pág. 54 , op. Cit.)

Depoimento (anônimo): "Era um homem de poucas palavras, mas sua alegria era visível quando um aluno medíocre conseguia um bom resultado. Cada um de nós ficava contente ao receber dele por um trabalho oral a expressão: muito bem. Sua cordialidade, sua atenção incitavam ao trabalho. Preparava os alunos para que soubessem falar espontaneamente, sem recorrer às anotações. Demonstrava a todos a mesma delicadeza. Não deixava transparecer nenhum desprezo pela massa de alunos indiferente, nem pelos mais fracos ou menos dotados. Se Nietzsche era parcimonioso nos elogios, usa mais raramente ainda de reprimenda... Nunca o víamos irritado, nunca elevava o tom da voz, nem se alterava..." (pág. 55, op. Cit. )

História, cultura e educação -


 Segundo Nietzsche, a educação que os jovens alemães recebem nas instituições de ensino funda-se numa concepção de cultura histórica que, ao privilegiar os acontecimentos e as personagens do passado, retira do presente sua efetividade e desenraíza o futuro.
Uma história, um pensamento que não servem para engendrar vida e impor um novo sentido ás coisas só podem ser úteis àqueles que querem manter a ordem estabelecida e o marasmo da vida cotidiana.
É pensando na juventude e confiando nela que Nietzsche grita: "Já basta de cultura histórica". "De resto, abomino tudo aquilo que me instrui sem aumentar e estimular imediatamente minha atividade." – com esta citação de Goethe, Nietzsche inicia sua Segunda Extemporânea e dela tira a seguinte conclusão: deve-se abominar o ensino que não vivifica e o saber que esmorece a atividade. O homem deve aprender a viver, e só se utilizar da história quando ela estiver a serviço da vida. (pág. 60, op. Cit. )
........... A cultura, na perspectiva de Nietzsche, só pode nascer, crescer, desenvolver-se a partir da vida e das necessidades de vida... (pág. 60, op. Cit.)
...... O excesso de história, o saber a qualquer preço, a ruminação do passado, a cultura da memória – são essas as forças que separam a cultura da vida. Quando a história se põe a serviço da vida passada, alerta Nietzsche, torna-se coveira do presente. Depauperiza e provoca a degenerescência da própria vida. Longe de alimentá-la, mumifica-a. Fossiliza o próprio tempo. O excesso de história conserva a vida, mas não sabe fazê-la nascer; por isso, só faz depreciar a vida em transformação.
É preciso ficar claro que Nietzsche não tem a ingenuidade de opor à história a ausência de sentido histórico. O que discute é em que medida a história pode ser útil à vida.
Analisa as causas e descreve os sintomas da doença histórica: a expansão do saber e o conseqüente enfraquecimento da cultura.
Nós não somos feitos para o saber, é o saber que é feito para nós. A vida tem necessidade da história, e a história é própria do ser vivo. O excesso de história, no entanto, envenena a vida.
.... O que Nietzsche propõe para a cultura histórica é uma questão de dosagem. Não se trata de negar o sentido histórico, mas de conter o seu domínio, de conduzi-lo a uma justa medida.
O artista, homem ativo por excelência, não deixa que a massa do saber histórico o submerja, porque sabe que ela retiraria de si o único poder que lhe cabe na terra: o da criação. (pág. 61, op. Cit.)
Busca o passado, porque tem necessidade de modelos que não consegue encontrar ao seu redor. Absorve e transforma em sangue próprio todo o passado, o seu e o dos outros, para utilizá-lo em sua obra, mas sabe também que todo ato criador nasce de uma atmosfera não histórica, de um estado de esquecimento. Para realizar sua obra, o artista "esquece a maior parte das coisas para realizar uma só, é injusto para com o que está atrás de si e só conhece um direito, o daqueles que vai ser".
Mas o homem de cultura histórica, diferente do artista, utiliza-se da história para alijar o presente de sua efetividade: por toda parte, arrasta consigo as "indigestas pedras do saber". Desconhece a força plástica de que dispõe para digerir a multiplicidade de conhecimentos que pode armazenar sem perigo para o seu desenvolvimento harmonioso, pois é ela que transforma em sangue e carne todo o alimento intelectual e, de uma maneira geral, todas as suas experiências. Orgulha-se de sua cultura histórica, porque esta o coloca no fim da história.
Para Nietzsche, a cultura histórica padece da "crença paralisante" de uma representação teológica, herdada da Idade Média. Em outras palavras, "sofre do pensamento da proximidade do fim do mundo", do terror do "Juízo Final". Na origem do abuso da história, está o pessimismo cristão. Sob a máscara da erudição, esconde-se uma "teologia camuflada".
A cultura histórica – "o olhar para trás, fazer as contas, concluir, procurar consolo no que foi, por meio de recordações" – prediz uma conclusão da vida sobre a Terra e "condena tudo o que vive a viver o último ato". Tudo sobrevive sob esta máxima: "é bom saber todo o acontecido, porque é tarde demais para fazer algo de melhor" Esse sentimento de desesperança ensombrece toda educação e cultura superiores e impede que o novo venha a existir. (pág. 63, op. Cit.)

A educação e o homem erudito - 

O exame da literatura escolar e pedagógica dos últimos decênios levou Nietzsche a constatar que, apesar das flutuações do programas e da violência dos debates, o projeto educativo continua a ser o mesmo: a formação do "homem erudito". O monótono cânone da educação poderia resumir-se nestes pontos: o jovem aprenderá o que é cultura e não o que é vida, isto é, não poderá de modo algum fazer suas próprias experiências; a cultura será insuflada no jovem e por ele incorporada sob a forma de conhecimento histórico; seu cérebro será entulhado de uma enorme quantidade de noções tiradas do conhecimento indireto das épocas passadas e de povos desaparecidos, e não da experiência direta de vida. Se, porventura, o jovem sentir necessidade de aprender alguma coisa por si próprio e desenvolver "um sistema vivo e completo de experiências pessoas", tal desejo deverá ser abafado. Em compensação, terá a possibilidade de, em poucos anos, acumular em si mesmo as experiências memoráveis do tempo passado.
Todo o sistema educacional é concebido como se o jovem pudesse descobrir sua vida nas técnicas passadas. (pág. 64, op. Cit.)
... Saber muito e ter aprendido muito não são nem um meio necessário, nem um signo de cultura, mas combinam-se perfeitamente com o contrário da cultura, a barbárie, com a ausência de estilo ou com a mistura caótica de todos os estilos".

..... Quando Nietzsche denuncia o caráter imitativo dos alemães, não tem por objetivo contrapor à mistura caótica de todos os estilos uma cultura nacional; pelo contrário, critica o nacionalismo exacerbado dos que confundem cultura com as glórias militares dos exércitos prussianos. Quando afirma a originalidade do espírito alemão, dos seus filósofos e artistas nacionais, é para lutar contra a imitação superficial dos costumes, das artes e da filosofia de outros povos e o conseqüente desenraizamento da cultura alemã.
O segredo dissimulado da cultura moderna, sua verdade eterna, é que ela não possui nada de próprio, tendo-se tornado alguma coisa que se assemelha a uma "enciclopédia ambulante", uma película que envolve os costumes, as artes, as filosofias, as religiões e o conhecimento alheio: "... mas o valor das enciclopédias está apenas no seu conteúdo e não no invólucro, na sua encadernação de ouro; é desta forma que a cultura moderna é essencialmente interior; no exterior, o encadernador inscreve qualquer coisa do gênero: ‘Manual de cultura histórica para homens de exterior bárbaro’". (pág. 65, op. Cit.)

O saber absorvido sem medida aparente pelo homem, deixa de atuar como motivo transformador, não aflora, permanece escondido e forma o que Nietzsche chama de sua "interioridade" – um amontoado de coisas acumuladas desordenadamente. A oposição entre interior e exterior no homem é, na verdade, o sintoma mais evidente de uma cultura decadente e da ausência de uma unidade de estilo. (pág. 66, op. Cit.)
.... O que Nietzsche deplora na educação é a disjunção entre corpo e espírito. Sua concepção de educação, fortemente influenciada pelos gregos, considera que corpo e espírito devam ter o mesmo desenvolvimentos sem que haja a hipertrofia de nenhum desses dois elementos. Reprova também o fato de a educação de sua época não ter como objetivo formar personalidades fortes, mas sim homens teóricos.
Sendo assim, pode-se concluir que o excesso de história, a cultura livresca, a separação do corpo e do espírito levam Nietzsche a dizer que a Alemanha não tem exatamente uma cultura. Se ela existe, é apenas uma cultura artificial, e não a expressão direta da vida; um suplemento, um excedente. Poderíamos desfazer-nos dela sem o menor prejuízo para a vida, pois é apenas um conjunto de adornos para tirar o homem de seu tédio. A Alemanha não possui uma cultura, nem pode tê-la, em virtude de seu sistema educacional. A partir do reconhecimento dessa verdade, afirma Nietzsche, deverá ser educada a primeira geração dos que irão construir uma cultura autêntica.
Todavia, essa geração deverá educar-se a si mesma e contra si mesma – isto é, terá de formar novos hábitos e uma nova natureza, desfazer-se de sua primeira natureza, abandonar seus primeiros hábitos, de tal modo que diga: "Que Deus me defenda de mim, da natureza que me foi inculcada".
Todas as ações ligam-se a apreciações de valor, e todas as apreciações de valor são ou pessoais ou adquiridas – e essas última são, sem sombra de dúvida, as mais numerosas. As pessoa submetem-se mais às convenções do que ás suas próprias convicções. No primeiro parágrafo de Schopenhauer como educador, Nietzsche relata a seguinte passagem: perguntaram a um viajante, que havia percorrido muitos países e conhecido vários povos, qual a qualidade que mais encontrara nos homens. Sua resposta foi esta: uma propensão á preguiça. Por toda parte, encontrara homens entediados, escondendo-se atrás dos costumes e das opiniões alheias. Por preguiça e temor ao próximo, os homens se comportam de acordo com as convenções e seguem a moda do rebanho. Que motivo têm para adotar sempre as opiniões e as apreciações de valor de seu semelhante? Em uma palavra, o hábito....
Mas para desprender-se e defender-se das virtudes do rebanho é necessário que os homens engulam a seguinte verdade, como um remédio amargo: a primeira virtude do homem é ousar ser ele mesmo. É preciso triunfar sobre si mesmo, isto é, sobre a natureza que lhe foi inculcada e o tornou inepto para a vida. Para Nietzsche, não há espetáculo mais hediondo do que ver um homem que se despojou do seu "gênio", do seu ser criador e inventivo. Falta-lhe medula. Só tem fachada. Assemelha-se a um "fantasma da opinião pública"........ (pág. 66 e 67, op. Cit.)



A imitação criadora (pág. 75, 76 e 77, op. Cit.) - À primeira vista, pode parecer estranho ouvir Nietzsche recomendar aos que querem se educar que procurem um modelo para imitar. É bom lembrar que Nietzsche critica o "filisteu da cultura" justamente pelo fato de ser um imitador, um espectador da vida e do pensamento alheio, e não o autor de sua vida e de seus pensamentos. Para evitar mal-entendidos, é preciso compreender a que tipo de imitação Nietzsche se refere, e como se aproximar de um modelo que ao mesmo tempo eduque e eleve.

Nietzsche adverte para o perigo que corre todo imitador. A dignidade de um pensador ou artista, a sua superioridade sobre todos os outros homens podem fazer com que os que queiram imitá-los fiquem de fora da comunidade dos ativos.

De que modo isso pode acontecer?
A imagem do grande homem pode produzir uma cisão na alma e na personalidade do indivíduo, de tal forma que ele comece a viver em dupla direção: em contradição consigo próprio e voltado para quem deseja imitar. Isso fatalmente lhe retirará todo o poder de agir, e seu pensamento não poderá ser outro: "Não poderei fazer melhor do que ele; portanto, permanecerei não fazendo nada". Assim, novamente o indivíduo se deixa imobilizar: "Se tudo já está feito, é melhor cruzar os braços e esperar o fim da história".
A imitação a que Nietzsche se refere não é a imitação do "filisteu da cultura", nem a imitação a que pode sucumbir um jovem bem-intencionado. A imitação, para ele, é ativa, deliberada, construtiva, e permite a reconstrução do modelo, a superação de si mesmo e a anulação do efeito paralisante de sua época. Como bem escreve Lacoue Labarthe, em seu livro A imitação dos modernos:

"Assim, a luta de Nietzsche contra a imitação e a cultura histórica consiste, no essencial, numa conversão da mimesis... Converter a mimesis é torná-la viril. É fazer com que ela deixe de tomar a forma de submissão para tornar-se realmente criadora. E, se na imitação passiva ocorre um mal relacionamento com a história, é esse mesmo relacionamento que é preciso converter e transformar em relacionamento criador".
Em suma, Nietzsche propõe uma imitação criadora. Não se trata de repetir passivamente o modelo, mas de encontrar o que tornou possível sua criação. É a imitação da "história monumental", isto é, do que é exemplar e digno de ser imitado, e deve visar "a superar o modelo". Imitar o modelo quer dizer mimetizar sua força criadora e transformadora. O exemplo é um estímulo para a ação e para uma nova configuração.......

O gênio e a cultura:

 O percurso do gênio é sempre penoso e solitário. Por ser original, isto é, ver sempre as coisas pela primeira vez, é vítima de uma série de mal entendidos. Enquanto os homens comuns e os eruditos se preocupam com o esquadrinhamento do que é útil e chama a isso de cultura geral, o gênio está além das motivações interesseiras e interessadas e tem uma visão de conjunto do conhecimento e da vida. É um "homem-destino", um instrumento do fundo criador da vida, investido de uma missão cósmica de conservar a vida e fazê-la frutificar Ultrapassa a compreensão, mas não a percepção dos homens. (pág. 81, op. Cit.)

Os setores que promovem a cultura deveriam ter como meta a criação do gênio. Entretanto, sua finalidade é outra. Esse desvio ocorre, segundo Nietzsche, por interferência de três egoísmos: o egoísmo das classes comerciantes, o egoísmo do Estado e o egoísmo da ciência.






O Egoísmo das classes comerciantes :

 As classes comerciantes necessitam da cultura e a fomentam, embora prescrevendo regras e limites para sua utilização. Eis o seu raciocínio: quanto mais cultura, maior consumo e, portanto, mais produção, mais lucro e mais felicidade. Os adeptos dessa fórmula definem a cultura como um instrumento que permite aos homens acompanhar e satisfazer as necessidades de sua época e um meio para torná-los aptos a ganhar muito dinheiro. Assim, os estabelecimentos de ensino devem ser criados para reproduzir o modelo comum e formar tanto quanto possível homens que circulem mais ou menos como "moeda corrente".

Com a ajuda de uma formação geral não muito demorada, pois a rapidez é a alma do negócio, eles devem ser educados de modo a saber exatamente o que exigir da vida e aprender a ter um preço como qualquer outra mercadoria. Assim, para que os homens tenham uma parcela de felicidade na Terra, não se deve permitir que possuam mais cultura do que a necessária ao interesse geral e ao comércio mundial.



O Egoísmo do Estado :

O Estado também deseja a extensão e a generalização da cultura, e tem em mãos os instrumentos para isso. Tem interesse no desenvolvimento intelectual de uma geração, para fazê-la servir e ser útil às instituições estabelecidas. Quer fazer acreditar que é fim supremo da humanidade, não havendo dever maior para o homem do que servi-lo: apresenta-se como o "mistagogo da cultura", o mentor das artes, quando, na verdade, visa apenas ao seu próprio interesse – ou seja, formar quadros de funcionários para mantê-lo existindo.



O Egoísmo da ciência: 

Em terceiro lugar, vem o egoísmo da ciência e a singular atitude de seus servidores: os cientistas. Enquanto se entender por cultura o progresso da ciência, esta passará impiedosa e gelada diante do grande homem que sofre, pois vê em todo lugar problemas de conhecimento. A principal característica do cientista é a avidez insaciável por conhecimento. O avanço a qualquer preço e a toda velocidade; a pesquisa cada vez mais "produtiva", no sentido econômico da palavra; o culto idolátrico do real, "fazendo justiça aos fatos" – eis o que caracteriza a ciência. (pág. 82, op. Cit.)


Será que o pensamento de Nietzsche pode ser usado, hoje, como um instrumento para pensar a educação?

Será que seu exemplo ainda pode servir para nos educar e, consequentemente, educar a quem educamos?


Não há dúvidas quanto a essas questões. Nietzsche apontou problemas que, apesar dos esforços de alguns educadores bem-intencionados, ainda não foram resolvidos. Um deles – e talvez o mais grave – é o ensino da língua materna, até hoje um grande desafio. Cada vez mais, abandona-se a formação humanista, em favor de uma educação voltada para as necessidades do parque industrial.
Isto incentiva os indivíduos a um preparo rápido – uma profissionalização – que os torne aptos a trabalhar na "fábrica da utilidade publica" e a servir como técnicos na maquinaria do Estado. Uma formação humanista seria um luxo que os afastaria do mercado de trabalho.
Como filósofo-educador e "médico da cultura", Nietzsche repensou as questões de educação a partir das necessidades vitais (que não se resumem à sobrevivência), e não às do mercado de trabalho, criado para satisfazer as exigências do Estado e da burguesia mercantil.
Adotou a vida como critério fundamental para todos os valores da educação e, com isso, destruiu as convicções que sustentavam o sistema educacional de sua época.
... Tomar Nietzsche como exemplo significa educar-se incansavelmente; adquirir uma capacidade crítica pessoal e uma capacidade de pensar por si; aprender a ver, habituando o olho no repouso e na paciência; dominar o "instinto do saber a qualquer preço", utilizando este princípio seletivo: só aprender aquilo que puder viver e abominar tudo aquilo que instrui sem aumentar ou estimular a atividade; manter uma postura artística diante da existência, trabalhando como artista a obra cotidiana; "dar à vida o valor de um instrumento e de um meio de conhecimento", procedendo de modo que os falsos caminhos, os erros, as ilusões, as paixões, as esperanças possam conduzir a um único objetivo – a educação de si próprio.

Em suma, tomar Nietzsche como exemplo não é pensar como ele, mas sim pensar com ele: "Nietzsche" não é um sistema, nem mais um pensador com um programa de educação. Nietzsche, como afirma Gérard Lebrun, "é um instrumento de trabalho insubstituível".

Minhas conclusões:

Podemos observar que estas conclusões de Nietzsche, descrevem ainda, o modelo organizacional de nossa sociedade apesar dos "avanços tecnológicos".
Acredito  em minha experiência como educadora e mãe, e assim pude observar que o indivíduo não desenvolve sua capacidade de "ser" com plenitude em um contexto que, padroniza o saber, o viver, o sentir, o pensar.  Estamos extasiados pelo competitivo mundo globalizado dos cifrões, "tempo é dinheiro".
Falamos de Sustentabilidade, Direitos humanos, Democracia em um mundo em que "parecer que é" tem mais valor do que realmente ser. Tudo em demasia sufoca, cega, ensurdece. O conhecimento extratificado das massas, implantado pela mídia oportunista e alienante faz com que a humanidade "flutue" pela vida,  sem "sentir" o que a vida nos apresenta. Nos falta degustar a vida, com tudo que ela representa: alegrias tristezas e frustrações. Com já dizia nosso Nietzsche:
..."O que não  mata  fortalece".
Sabemos o quanto é importante a prática científica, mas deveríamos despender um cuidado maior sobre o que o ser humano já traz consigo quando entra na sala de aula. Suas experiências e carências.
Estudar a história da humanidade é importante também, mas a carga horária deveria ser divida com disciplinas que trouxessem um crescimento humano para as crianças. Práticas que preparariam melhor o homem , que os fizessem desenvolver o pensamento crítico, e aceitar que não existe verdade absoluta quando se trata de conhecimento. Só assim estariam na construção rumo a uma nova realidade ainda utópica: Viver em uma sociedade mais libertária e igualitária. 

Danubia Rocha

(Do livro: Nietzsche Educador, Rosa Maria Dial, Editora Scipione,1990)

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