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Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância.

Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio d...

Questão de método? ...mas que método??????



Questão de método? ...  mas que método???



Kristhian Kaminski e Patrícia Gil

A precariedade da alfabetização no país é uma realidade demonstrada não só na falta de "letrados" como no excesso de números negativos. O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) mostra que o desempenho dos estudantes da rede pública, que já não era dos melhores, está piorando. Esses indicadores educacionais, nos próximos anos, vão engrossar as fileiras de trabalhadores sem qualificação, desempregados e sem perspectivas sociais. O fracasso das sucessivas tentativas do governo federal em superar essa deficiência é um desafio já resolvido em muitos países desenvolvidos. No Brasil, a polêmica pode estar apenas começando e - dentro das carências estruturais típicas de um cenário de subdesenvolvimento - parte da culpa pode estar no método de ensino e na sua falta de adequação à realidade socioeconômica do país. 


Até então considerado o que havia de mais moderno e eficaz entre as teorias de ensino, o construtivismo passou a ser o alvo mais freqüente de ataques. Mesmo os seus mais fiéis adeptos reconhecem que seu emprego na educação básica brasileira vem sendo, no mínimo, distorcido. O conceito preconiza que é preciso levar em consideração a bagagem cultural adquirida pela criança antes de ingressar na escola. A técnica consiste em apresentar o mundo letrado ao aluno diretamente por meio do texto, mesmo antes que ele seja capaz de decodificar cada palavra. 

        
Pois é exatamente aí que se encontra a raiz do problema brasileiro: os que pregam a concepção construtivista muitas vezes ignoram que esses estudantes mirins trazem de casa uma bagagem bem mais vazia do que se esperava. Eles herdam dos pais uma história de defasagem educacional. "É a mesma coisa que pegar um texto em alemão, entregar a alguém que não conhece a língua e pedir para ler. Ou pegar uma partitura de Chopin e dar para um iniciante em música", comenta o professor Fernando Capovilla, coordenador do Laboratório de Neuropsicolingüística Cognitiva Experimental (Lance), do Instituto de Psicologia da USP. 



Capovilla afirma que o construtivismo condena as crianças de classes menos favorecidas ao fracasso escolar. Além de questionar a validade da concepção usada no Brasil, ele é um dos mais ferrenhos defensores do emprego do método fônico. Taxado de antiquado por educadores ligados ao Ministério da Educação, o método prevê o básico: ensinar às crianças a correspondência entre sons (fonemas) e letras (grafemas). 

Abismo - Para Telma Weisz, supervisora do programa de alfabetização do MEC, o método fônico sempre teve defensores e sempre terá: "Mas o mundo mudou e ele continuou como era na década dos 20. Sempre haverá gente com uma visão mais tecnicista do ensino e para estas o método fônico é mais adequado." Por aí, dá para ter uma noção do abismo que separa os entusiastas de cada uma das linhas de alfabetização. 

A concepção construtivista surgiu em meados da década dos 80, baseada nos estudos de psicogênese da língua escrita apresentados pela educadora argentina Emília Ferreiro. Em 1996, essa linha de ensino foi institucionalizada no Brasil, a partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). No entanto, ao longo da sua implantação ocorreram alguns desencontros entre teoria e prática. O primeiro foi a falta de preparo de muitos professores para lidar com a nova situação. Esses, por sua vez, põem a culpa no sistema. Reclamam, entre outras coisas, que são impedidos de corrigir os erros dos alunos. Isso porque a teoria prega, entre outras coisas, que, nas séries iniciais, o importante é que a criança exercite a escrita a seu modo e somente numa etapa mais avançada é que se deve introduzir conhecimentos de ortografia e gramática. 

Outra distorção é acreditar que o construtivismo é incompatível com métodos de ensino tradicionais. A Espanha é prova de que isso não é verdade. As escolas espanholas também se orientam pela linha construtivista, mas sem deixar de lado o método fônico, empregado para reforçar a capacidade de leitura dos estudantes. 


No Brasil, o construtivismo esbarra num grande complicador. Ao se apoiar na bagagem cultural de cada criança, a tendência é de que estudantes oriundos de famílias menos letradas enfrentem dificuldades. Essa lógica é confirmada pelos resultados do Saeb de 1999. Filhos de pais que nunca freqüentaram a escola estão na faixa de desempenho abaixo da média nacional (170 pontos) na prova de língua portuguesa, numa escala que vai de 0 a 500. As crianças da quarta série do ensino fundamental nessa condição atingiram 161,3 pontos, contra 200,2 dos filhos de pais com nível superior de escolarização. Segundo o censo educacional de 2000, a média de estudo do brasileiro é de 5,7 anos. 

Desempenho - A renda familiar é outro fator que contribui para que uma criança tenha um desempenho melhor ou pior, já que interfere diretamente no grau de acesso da família ao conhecimento, como a compra de livros, por exemplo. De acordo com dados do IBGE, cerca de 60% da população brasileira tem renda familiar média de até cinco salários mínimos. 

Pode-se supor, com base nesse cenário, que o construtivismo teria melhores resultados em países em que a população é mais culta. No entanto, boa parte deles adota métodos considerados ultrapassados pelos que defendem o construtivismo. Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Itália, Canadá e Portugal, para citar alguns exemplos de países desenvolvidos, empregam o método fônico antes de partir para a compreensão e interpretação de textos. Ele, porém, não é aplicado isoladamente, mas como parte essencial de um amplo programa de leitura e escrita (leia quadro). O resultado: segundo números da Unesco, esses países têm taxas de reprovação que não chegam a 5%. Na Alemanha, cujo sistema está centrado no método fônico, a taxa de repetência é de apenas 2%. 

É claro que não é só o método o responsável por esses resultados, mas sim toda uma estrutura socioeconômica. No entanto, no grupo de países em desenvolvimento, também há quem aplique o método fônico, integrado a outras ferramentas, com bons resultados. O Chile é um exemplo. Cuba, com uma taxa de repetência de 3%, é outro. 

A discussão em torno do método de ensino brasileiro está só no começo. Mas, nos Estados Unidos o debate é tão acalorado que vem sendo chamado de reading wars, o que traduzido ao pé da letra seria algo como "guerra na leitura". Por causa dessa briga, o National Institute of Child Health and Human Development (Instituto Nacional de Saúde da Infância e Desenvolvimento Humano) fez, entre 1997 e 1999, a pedido do Congresso norte-americano, o mais completo levantamento já produzido naquele país sobre métodos de alfabetização. Batizado de National Reading Panel (Painel Nacional de Leitura), a pesquisa tinha como objetivo descobrir se a abordagem fônica era realmente eficaz. 

Debates - Para executar o trabalho, foi formada uma comissão composta de pesquisadores, representantes de escolas, professores e pais. Numa primeira etapa, o grupo identificou cerca de cem mil estudos sobre alfabetização realizados no país desde 1966 e selecionou os mais relevantes. Foram realizadas diversas audiências públicas, nas quais o tema foi amplamente debatido. A partir desse levantamento, a comissão elaborou um relatório, apresentado ao Congresso em fevereiro de 1999. 

A conclusão da pesquisa (leia quadro) foi de que as crianças alfabetizadas por meio de métodos fônicos desenvolvem melhor a compreensão e interpretação de textos, além de melhorar a expressão oral. "As descobertas mostraram que ensinar as crianças a manipular fonemas foi altamente efetivo sob uma variedade de condições de ensino e uma variedade de alfabetizandos de diferentes séries e idades", atesta o estudo. Os participantes do painel destacam que o treinamento em consciência fonética não constitui um programa completo de leitura. "No entanto, ele dá à criança conhecimento essencial sobre o sistema alfabético. É um componente necessário a um completo e integrado programa de leitura", afirma o relatório. 

Outras entidades, como a International Reading Association (Associação Internacional de Leitura), dos Estados Unidos, também defendem a utilização do método fônico. Segundo dados da instituição, 98% das escolas norte-americanas utilizam o sistema em seus programas de alfabetização. "O ensino de fonética, que foca a relação entre sons e símbolos, é um importante aspecto no começo da alfabetização. Porém, uma instrução fônica efetiva deve estar encravada num contexto de leitura e linguagem", defende a associação. A Educational Resources Information Center (Centro de Informações em Recursos Educacionais) também prega que nenhuma técnica isolada tem bons resultados, mas considera o método fônico parte integrante de um bom sistema de alfabetização. 

O Ministério da Educação, a quem cabe elaborar as diretrizes do ensino no país, não admite a hipótese de que o baixo desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio no Saeb possa estar associado ao modelo. Aliás, rejeita a redução do construtivismo a um método, no que está certo, mas não aceita a possibilidade de que o sistema talvez precise ser reavaliado. 

Mecanização - Para Telma Weisz, o método fônico ignora o que a criança já sabe e reduz o aprendizado a um processo mecânico. Mas ela reconhece que há um movimento "ainda incipiente" que prega mudanças no atual sistema e que, dentro deste quadro, apenas o método fônico tem sido reafirmado como uma alternativa válida. "A minha crítica é que ele reduz o ensino à associação de sons e letras, continua ignorando que a língua não é apenas isso." Telma ressalta que o construtivismo é um conjunto de práticas, nas quais o ensino é concebido dentro de um modelo de resolução de problemas. "Não há como compará-lo com o método fônico, embora muita gente queira emplacar essa comparação", critica. Na avaliação da supervisora de alfabetização do MEC, as taxas de repetência no Brasil sempre foram muito altas e, portanto, os métodos de alfabetização tradicionais (leia quadro com as várias concepções) vinham se mostrando "inadequados desde sempre". 

Países da Europa e os Estados Unidos, segundo ela, só não vinham enfrentando problemas com o método fônico até agora porque sempre tiveram uma população bastante homogênea. Ou seja, em sociedades mais letradas, qualquer técnica de alfabetização tende a ter sucesso. Com o aumento da imigração nos países desenvolvidos, o sistema até então bem-sucedido tende a dar sinais de esgotamento. A avaliação de Telma inverte os argumentos dos educadores que acusam o construtivismo de elitista. 

O professor Capovilla discorda da posição do MEC. "O Brasil posa de moderno, mas diversos países desenvolvidos usam o método fônico com bons resultados. O Brasil continua na pré-história", acredita. Para ele, o construtivismo roubou do professor a função de ensinar, ao pregar que o texto seja introduzido desde o início da alfabetização. O método fônico, diz, não impede a introdução de textos no aprendizado, mas prevê que isso ocorra somente depois que o aluno tiver capacidade para decodificá-lo. 

Como prova do fracasso do construtivismo entre alunos de classes mais baixas, ele cita uma escola pública de Marília (SP) que, após constatar que as crianças chegavam à 4.ª série do ensino fundamental sem saber ler e escrever, decidiu voltar a empregar o método fônico e conseguiu reverter a situação (leia na pág. 58). 

De acordo com especialistas, existem alguns riscos de se introduzir um texto para uma criança que não sabe ler. Um deles é de que ela passe a adivinhar o significado das palavras em vez de compreendê-las e faça associações equivocadas. Um exemplo: se a criança conhece a palavra formiga, ela pode passar a confundir termos parecidos, como formigamento ou formigueiro. Dados do Lacen-USP indicam que o porcentual de crianças com dificuldades de leitura gira em torno de 4% no mundo. No Brasil, chega a 10%, fato atribuído por Capovilla ao sistema de ensino brasileiro. 

Para a maioria dos estudiosos da área educacional, ainda é possível apostar no construtivismo, desde que ele passe por uma reavaliação. "A questão fundamental é a má interpretação que se faz do construtivismo. Um grande erro é afastar totalmente o método e deixar que a criança aprenda sozinha", diz a lingüista Magda Becker Soares. Para ela, não se pode voltar ao passado, quando o professor tinha a receita pronta e bastava aplicá-la. "No construtivismo não se dá receita, mas sim meios para acompanhar o processo e interferir na hora adequada. Para isso, o professor tem de conhecer fonologia, além da teoria da aprendizagem e questões de linguagem." 

Na avaliação de Magda, abandonar o construtivismo não é a solução, mas é preciso rever alguns pontos. "Em certos momentos, é preciso trabalhar com o método fônico, em outros, o método silábico é mais adequado. Há muito exagero dentro das correntes do construtivismo, como abrir mão do material didático, por exemplo." 

Meio termo - A lingüista Idmea Smeghini-Siqueira, professora da Faculdade de Educação da USP, também defende um meio termo. Ao contrário do que se pensa, comenta, o professor continua sendo fundamental. Mas ele precisa conhecer o processo de aprendizagem e a real situação do aluno, que ainda não sabe ler. Para ela, o grande entrave ao processo está em mudar a cabeça de quem ensina. "Alguns entraram em contato com o construtivismo de forma muito superficial e não souberam aplicá-lo. Nesse caso, essa concepção acaba ficando como adorno porque não tem efeito." 


O problema dos baixos níveis de aprendizagem toma contornos mais graves se levarmos em conta que, junto com a concepção construtivista, muitas escolas adotam processos de progressão continuada. Ou seja, o aluno passa a ser avaliado no fim de um período (geralmente ao fim da quarta e da oitava séries do ensino fundamental) e até chegar lá vai sendo aprovado mesmo que não tenha aprendido todos os conteúdos necessários.

As pesquisas do MEC, entre elas o Saeb, mostram que o aluno tem melhor desempenho quando está entre colegas da mesma idade. Um estudante da terceira série, por exemplo, tem mais chances de progredir se passar para a quarta série do que se repetir o ano. O sistema de ciclos, porém, acaba por mascarar um problema: a defasagem idade-série está sendo substituída pela defasagem de conhecimento. "O que não pode acontecer é o professor constatar que o aluno chegou à quinta série, por exemplo, sem saber ler, e querer insistir em ministrar o conteúdo previsto", avalia Ruben Klein, consultor da Fundação Cesgranrio. 
Esse tipo de teimosia tem muito a ver com a história do construtivismo no Brasil. Não que a culpa seja toda do modelo. Mas pode estar na insistência cega em não rediscutir um sistema que ainda não demonstrou ser capaz de sozinho melhorar os indicadores de qualidade. 


Colaborou: Silo Meireles (

Palavras minhas:

Há também o problema da falta de preparo dos profissionais envolvidos no processo educacional.Não vamos chegar a lugar algum sem antes reformular o sentido da palavra humanidade.Educar nos dias de hoje é mais que alfabetizar, é humanizar.Temos lindas teorias e métodos mas o próprio professor, não busca qualificar se para tamanho desafio, tal qual  um soldado rumo à guerra SEM ARMAS.


DANÚBIA ROCHA

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