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Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância.

Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio d...

O conceito de infância através da história

INFÂNCIA?  QUE BICHO É ESSE?

Criança pequena com agenda lotada. A televisão que se transforma em babá. Os pais ausentes. Carinho transformado em objeto. O tamagoshi e a afetividade objetificada. Segundo Solange Jobim e Souza , estes são apenas alguns dos fragmentos que compõem o contexto da infância contemporânea, Além desses, pode-se citar a cultura do consumo que, através da publicidade, descobriu a criança sozinha em casa, mandando nos pais. 


Para entender, entretanto, o lugar social que a criança ocupa na sociedade não se pode analisar tais fragmentos de forma isolada. Isso porque cada época irá proferir um discurso que revela seus ideais e expectativas em relação às crianças, tendo esses discursos conseqüências constitutivas sobre um sujeito que está em formação. A intenção, então, é revelar as transformações e orientações dos modos de "ser" da infância ao longo dos tempos, para, a partir do conceito histórico, analisar, através dos instrumentos teóricos e estatísticos, a experiência da criança em seus contatos iniciais ou não com sua sexualidade no mundo contemporâneo que a influencia. 

O pesquisador francês Philippe Ariès, em sua obra A história social da criança e da família, publicada em 1960, vai apontar que o conceito ou a idéia que se tem da infância foi sendo historicamente construído e que a criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, e sim como um adulto em miniatura.

Nesse sentido, a história da infância surge como possibilidade para muitas
reflexões sobre a forma como entendemos e nos relacionamos atualmente com a criança.
Assim, gostaríamos de discutir a respeito da construção do conceito de infância a partir de duas perspectivas: a de Philippe Ariès, de que o sentimento da infância teria surgido apenas na Modernidade, e dos apontamentos teóricos de Moysés Kuhlmann Jr., Jacques Gélis, Daniele Alexandre-Bidón e Pierre Riché, que, em suas pesquisas, indicam a presença de uma preocupação com as crianças em períodos anteriores, como a Idade Média.


A discussão sobre a importância e o surgimento da infância está presente em
pesquisas no campo da História, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Biologia, Antropologia, Arqueologia, entre outras, sendo possível o entrelaçamento de diferentes olhares e autores, entre eles, FARIA (1999), DEL PRIORE (1996-1999), KISHIMOTO (1988), FREITAS (1997), BADINTER (1985), POSTMAN (1999), MONARCA (2001), ROSEMBERG (1995), GAGNEBIN (1997), ABRAMOVICH (1983), CORAZZA (2000) e tantos outros que vêm contribuindo para enriquecer o conhecimento sobre a questão.
 Justifica se,portanto, considerá-la como essencial para todos nós que trabalhamos com crianças em diversas instituições de atendimento.

Até o século XVIII, não havia termos na língua francesa para diferenciar a infância, a adolescência e a juventude. A palavra "enfant" (criança) representava, ambos, crianças ou rapazes. Isso pode ser explicado: não era o critério biológico que distinguia as pessoas, sendo que "ninguém teria a idéia de limitar a infância pela ‘puberdade’..." . A dependência econômica marcava a idéia de infância"Só se saía da infância ao se sair dadependência" . Daí a explicação à algumas imagens e relatos do século XVI, segundo os quais, aos 24 anos, a criança é forte e virtuosa.
O reconhecimento do critério de dependência econômica para caracterizar a infância, em detrimento ao critério biológico, gerou a seguinte situação: considerava-se adulto quem não dependesse dos pais, ainda que mais jovem à outra pessoa que, contudo, fosse dependente economicamente. Esta era considerada criança. ausência de termos que correspondessem a um critério biológico de divisão das idades entre crianças, adolescentes, jovens e adultos reflete a ausência de preocupação com o que hoje queremos expressar por infância. Sabe-se que a língua representa um código lingüístico. A formação desse código, ou seja, das palavras, ocorre por meio de identificação entre algo que é representado e a palavra, que o representa. ausência de termos que caracterizem a infância indica a não percepção da singularidade dessa fase da vida.
Como o processo de construção da língua não é estático, o vocabulário referente à infância e à adolescência ampliou-se progressivamente, principalmente, entre as famílias nobres.
É assim que, no século XVIII, surgem novas expressões para designar a infância (bambins, pitchouns, fanfans em francês), sendo que os adultos passam a se interessar em registrar as expressões e o vocabulário utilizados pelas amas quando falavam com as crianças. "Tentou-se registrar até mesmo as onomatopéias da criança que ainda não sabe falar", registrando M. de Orignon sobre a sua netinha: "ela fala de um modo engraçado: titota, tetita y totota". 



Tudo leva a crer que - para o pensamento da época - não se acreditava que a criança já contivesse a personalidade humana, sobretudo, devido ao alto índice de mortalidade que estimulava a idéia de que era preciso ter vários filhos para se salvar alguns. A idéia de "perda eventual" era presente à época e pode ser observada em Montaigne: "perdi dois ou três filhos pequenos, não sem tristeza, mas sem desespero" ou Moliére: "a pequena não conta". 
Em síntese, como muitas crianças morriam devido às precárias condições de vida, pensava-se que um desígnio divino determinava a sobrevivência de apenas algumas crianças. Àquelas que morressem, seriam abrigadas no Reino do Céu, pois, eram puras, qualidade que nenhum ser humano possuía.

Exemplo relatado por Pestana Ramos mostra como a personalidade da criança não era reconhecida. Durante o naufrágio da nau São Tomé em que ia a D. Joana de Mendonça e sua filha, ante a impossibilidade de salvar a filha (que fora esquecida na caravela e a mãe já se encontrava no bote), pôs os olhosparacéu e "fez a única coisa que podia fazer, 
oferecendo ‘a Deus a tenra filha em sacrifício’, como outro Isaac, pedindo a Deus misericórdia para si, porque sua filha era inocente, e sabia que a tinha bem segura".  Esse não era um caso isolado. Nos naufrágios, as crianças não tinham prioridade de embarque .
Uma curiosidade da idade média:


Os banhos eram tomados numa única tina cheia de água quente e o chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade. Depois vinham as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças.
Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível "perder" um bebê lá dentro.
Ainda hoje é usada nos países de língua inglesa, a expressão "don't throw the baby out with the bath water", no vernáculo, "não jogue o bebê fora junto com a água do banho", para dizer a uma pessoa para não ter pressa em se livrar da coisas.
Em suma, a não percepção da criança enquanto pessoa humana dotada de personalidade refletiu nas representações artísticas. Esse fenômeno só viria se alterar a partir do século XVI, quando a criança começa a ser pintada. Algo começava a impulsionar as pessoas a retratarem as crianças para que pudessem se lembrar delas, seja se crescessem, seja se morressem. 
Paulatinamente, a criança vai ocupando um espaço central nos retratos e na pintura, agora organizados em torno da criança.






Nos trajes, utilizados pelas crianças na Idade Média, também não se distingue a roupa dos adultos, das vestes usadas pelas crianças dentro de um mesmo segmento social. O fator importante a se considerar era a condição social do indivíduo: servo, nobre ou religioso.


Após o período dos primeiros cuidados, a criança era vestida como homens e mulheres de sua condição social. Não havia a particularização de trajes, como ocorre em nossos dias, para o período designado pela infância, sendo a criança vestida como um homem em tamanho reduzido. O traje de adultos e crianças se confundem. Inexistia razão ou sentido para a particularização do traje destinado às crianças, até por que, como já se disse, o conceito de criança se baseava em um critério de dependência econômica e não em um critério biológico, baseado na idade.


 O tamanho era a única diferença entre os trajes de adultos e crianças.





Esse quadro viria a ser alterado na França do século XVIII, ao menos no que se refere às crianças filhas dos nobres, pois, a partir desse momento, preocupou-se em encontrar um traje adequado à sua condição, situação que manifestaria a distinção de adultos e crianças. 


Analisando uma tela acima de Philippe de Champaigne que representa os sete filhos da família Harbert datado de 1649, Ariès mostra como as crianças mais novas representadas no quadro não se vestem mais como adultos: "os dois gêmeos (que aparecem na tela), que estão afetuosamente de mãos dadas e ombros colados, (...)não estão mais vestidos como adultos. Usam um vestido comprido, diferente daqueles das mulheres, pois é aberto na frente e fechado ora com botões, ora com agulhetas: mais parece uma sotaina eclesiástica". 
Na sociedade medieval, o traje identifica a condição social do indivíduo. Ao ser vestida com um traje característico, tinha sido reservada à criança elevada consideração se comparada à época anterior. Consideração que a caracterizava como um ser particular, especial, carente de proteção e cuidados.
E sobre os jogos e brincadeiras? "Por meio dos jogos a criança, em todos os tempos, estabelece vínculos sociais, ajustando-se ao grupo e aceitando a participação de outras crianças com os mesmos direitos". (18) Jogos e brincadeiras são importantes manifestações de sociabilidade. É através deles que uma determinada sociedade ou grupo de pessoas se integra, exprime as suas tradições e revela o caráter lúdico presente no ser humano. A sociabilidade dos jogos e brincadeiras possibilita um estreitamento dos laços afetivos da sociedade, gerando integração e unidade do grupo. De certo modo, compreender os jogos e as brincadeiras de determinada comunidade pode revelar a sua organização social, as suas preocupações e os seus valores.
No século XVII, os jogos e brincadeiras eram comuns às crianças e aos adultos, envolvendo toda a sociedade. Isso revela a existência de uma outra moral na Idade Média, diferente da observada em nossa época, sob a qual impera uma rígida distinção entre jogos e brincadeiras destinadas aos adultos e crianças.
No diário de Luís XIII, escrito por Heroard, médico particular do futuro rei da França, verifica-se a presença dessa moral medieval. Luís XIII diverte-se com brinquedos de criança, mas também, brinca e se mistura com os adultos. Conta-nos Ariès que "esse menino de quatro a cinco anos praticava o arco, jogava cartas, xadrez (aos seis anos) e participava de jogos de adultos, como o jogo de raquetes e inúmeros jogos de salão". Também assistia a lutas entre os bretões, ao espetáculo de cães lutando com ursos e participava das festas tradicionais de Natal e dos Reis. Aos sete anos, joga dados com fidalgos do rei, aprende a matar, a caçar, a atirar e a praticar jogos de azar. Ao mesmo tempo, continua a brincar de bonecas. A utilização da expressão "ao mesmo tempo" na última frase expressa a surpresa diante do comportamento do futuro rei que guia as suas atitudes dentro de uma moral que não separa diversões de adultos e de crianças, tampouco estabelece limites rígidos a uns e outros.
Todavia, já no início do século XVIII, a partir de análises iconográficas, verifica-se a alteração dessa situação. Estimula-se a utilização e reserva-se às crianças determinados brinquedos, tais como, o cavalo de pau, o cata-vento, o pássaro preso por um cordão. Isso é significativo, pois, até então, os brinquedos eram comuns aos adultos e às crianças. A marionete de fantoches, por exemplo, divertia a ambos. Após um certo tempo, porém, o teatro de marionetes ficou reservado apenas às crianças. 











As origens dessa mudança de mentalidade teria ocorrido nos séculos XVII e XVIII quando os moralistas começaram a difundir a idéia de que os jogos - sem nenhum exceção - eram imorais e a sua prática deveria ser evitada. Essa nova postura anuncia uma característica presente no sentimento da infância, uma certa preocupação "antes desconhecida, de preservar sua moralidade[da criança] e também de educá-la, proibindo-lhe os jogos então classificados como maus, e recomendando-lhe os jogos então reconhecidos como bons".  Essa nova percepção da criança – detentora de uma pureza a ser resguardada - caracteriza o segundo sentimento de infância. A oposição dos moralistas era incisiva e ia contra o pensamento, até então dominante, segundo o qual os jogos - inclusive os de azar - eram inofensivos às crianças, não havendo razão para proibi-los."Na sociedade do "Ancién Régime", o jogo sob todas as suas formas - o esporte, o jogo de salão, o jogo de azar - ocupava um lugar importantíssimo, (...) a essa paixão que agitava todas as idades e todas as condições, a Igreja opôs uma reprovação absoluta". 






A partir do século XVII, a conseqüência foi a distinção entre os jogos de adultos e de crianças, abandonando-se aquelas brincadeiras e jogos que dividiam o espaço da criança ao do adulto. Uma conseqüência direta disso em nossos dias é a repugnância provocada todas vezes em que o espaço infantil é invadido por brincadeiras reservadas aos adultos, tais como, jogos de azar, filmes violentos e eróticos etc...
A educação dos moralistas , realizada por intermédio dos colégios, desenvolve e consolida o sentimento de infância. No século XIV, parece não ter existido a preocupação em separar os estudantes nas classes conforme as suas idades. "Seus contemporâneos [séculos XVII] não prestavam atenção nisso e achavam natural que um adulto desejoso de aprender se misturasse a um auditório infantil, pois o que importava era a matéria ensinada, qualquer que fosse a idade dos alunos". 
Atualmente, essa idéia é inconcebível, sendo a aprendizagem escolar de crianças associada à existência de uma classe de alunos de idade similar. A ação dos colégios, a partir do século XVII, pretendeu evitar que a criança se inserisse no mundo dos adultos.
O colégio, difundido a partir do século XIII, é importante para a consolidação do sentimento de infância. Evitava-se, assim, com que a criança entrasse de imediato no mundo dos adultos, refletindo a sensibilização à fragilidade da infância e à necessidade da criança se desenvolver moral e intelectualmente (século XVII), na medida em que o ambiente escolar propiciaria o desenvolvimento de uma infância mais longa ao adotar medidas pedagógicas inovadoras tal como, a divisão das classes de alunos pelas suas idades.
Outro exemplo de negação da infância foi vivenciado em terras brasileiras: a escravidão e os seus efeitos sobre as crianças escravas e as crianças filhas dos escravos. Sabe-se que o tratamento dado às crianças de elite brasileiras não era o mesmo conferido às crianças escravas. Para se ter uma idéia, as crianças escravas eram "pouquíssimo mencionadas em assuntos de vida diária nos documentos oficiais que tratam da região das minas e que se encontram conservadas em arquivos" e em relação à alimentação, a análise de documentos da época mostra haver maior preocupação com os cavalos que com os escravos. Era vedado à criança escrava ou filha de escravos o acesso à escola ou à saúde .Mas as crianças brancas tinham suas amas de leite, o que estreitava os laços afetivos entre as negras Mães de leite e os filhos de seus senhores.




Além disso, numa sociedade escravista, onde a relação de dominação predominava, a divisão das famílias dos escravos era constante. Somando-se ao fato de que inúmeras famílias eram separadas e vendidas é de se perguntar como eram construídas as relações de parentesco entre os escravos.





A despeito de todas as situações adversas, a família tinha um papel importante para a vida das crianças escravas ou filhas de escravos. Todavia, a estrutura da sociedade escravagista não lhes possibilitava o exercício do sentimento de infância. A entrada precoce da criança africana no mundo do trabalho contribuía para isso, já que a partir dos sete anos, as crianças escravas deveriam entrar no mundo dos adultos. A pedagogia colonial apregoava que entre os 04 e os 11 anos, a criança ia sendo moldada para o trabalho paulatinamente por atividades cotidianas.
A criança seria "valorizada" pelo senhor na medida em que crescia e se tornava hábil para produzir valor econômico. A criança mulata saía de um convívio que havia tido até os 07 anos na casa do senhor para o mundo do trabalho. Não que o convívio na Casa Grande se desse de forma igualitária, ao contrário, naquele espaço, não tinha acesso à educação sendo consideradas coisinhas engraçadas. Como acentua Góes e Florentino:"De todo modo, mui bruscamente o pequeno escravo haveria de compreender que não se tratava mais de um faz-de-conta, que freqüentemente era isso mesmo o que os homens livres exigiam dele". 
A negação a determinados setores da sociedade de expressarem o seu sentimento de infância - e isso não se confunde com o amor dos pais aos filhos - não significa negar a origem e a existência desse sentimento, mas sim, reconhecer que apenas determinados grupos tinha legitimidade para desfrutar do sentimento de infância. Esclareça-se, ainda, que à negação do sentimento de infância a determinados grupos dentro de uma ordem vigente não significou ausência de resistência desses grupos para que pudessem exercer aquele sentimento. Nesse prisma, na Guerra do Paraguai, por exemplo, "enquanto as primeiras [as famílias dos aprendizes] procuram proteger os próprios filhos, revelando a adoção de valores mais modernos relativos à infância, os últimos [os burocratas militares] encaminham, sem aparente peso da consciência, os vários meninos para batalhões navais." O que as famílias querem exercer é o sentimento de infância, representado nesse caso pela não utilização de seus filhos como combatentes na Guerra. O mesmo pode-se dizer em relação às famílias dos escravos com, por exemplo, a formação de quilombos.
Saliente-se, ao final, que é no século XVII, o momento em que se pode perceber, significativamente, a mudança do papel das crianças na sociedade apesar de desde o século XIII ela estar em desenvolvimento. Cumpre ressaltar que, a qualquer tentativa de sistematização, as manifestações culturais devem ser compreendidas em seu desenvolvimento dentro desse período. A sistematização, desse modo, desempenha o papel de possibilitar a compreensão didática.
Acredito ainda estarmos engatinhando rumo ao objetivo maior,que fará deste mundo um lugar digno e de valores humanitários:Criar possibilidades reais para que nossas crianças se desenvolvam de forma natural, cada qual a seu tempo,valorizando sua trajetória neste mundo e respeitando seu desejo nato, sem esquecer da disciplina, mãe da cidadania e da dignidade universal.
Educar com amor. 


Danúbia Rocha







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