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Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância.

Resenha do livro: POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio d...


Entre a Ciência e a Sapiência Os muitos dilemas da educação


“Pensa-se, comumente, que a tarefa de um político é administrar o país: pôr a casa

em ordem, construir coisas novas, consertar coisas velhas, cuidar das finanças, da

saúde, da segurança, da justiça, dos meios de comunicação, incluída, inclusive, a

administração dos meios de escolarização existentes, coisa sob a responsabilidade

do ministério da educação. Discordo. Existe uma diferença qualitativa entre aquilo

que fazem os ministérios administrativos e aquilo que o ministério da educação deve

fazer. A diferença entre eles é simples. Os ministérios administrativos cuidam do

hardware do país. Eles lidam com a ‘musculatura’ nacional. O ministério da

educação tem a seu cuidado o software do país. Ele cuida da ‘inteligência’ nacional.

Seu objetivo é fazer o povo pensar. Porque um país – ao contrário do que me

ensinaram na escola – não se faz com as coisas físicas que se encontram em seu

território, mas com os pensamentos de seu povo”. (Rubem Alves)

No caminho para o Planeta Educação passei pela escola onde lecionei durante uns 15

anos. Estava devendo uma visita rápida aos alunos que conviveram comigo até o final do

ano passado e, além disso, tinha que levar uns materiais que a direção havia requisitado.

Os materiais eram, na verdade, uma justificativa para poder encontrar os estudantes, meio

filhos, meio amigos, que tive que deixar para trás em virtude de outros compromissos

(estudo, trabalho).

Ao me encontrar com eles me dei conta de que ainda não dei aulas esse ano (na verdade

estarei começando o trabalho em sala de aula ainda essa semana). Conversei

rapidamente com todos eles para não atrapalhar o andamento das aulas em que estavam

envolvidos. Também acelerei a conversa porque a emoção sempre bate forte quando

estou em contato com eles, com aquele ambiente tão familiar, com a iminência de trocar

algumas idéias em aula...

“Durante anos consecutivos, nossos professores têm aprendido teorias científicas

sobre a educação, achando que é assim que se formam professores. Existe, de fato,

uma ciência da educação, como também existe uma ciência do piano. Mas a ciência

da educação não faz um professor, da mesma forma como o conhecimento da

ciência do piano não faz um pianista. Muitos professores maravilhosos nunca

estudaram as disciplinas pedagógicas. Se os alunos refutam diante da comida e se,

uma vez engolida, a comida provoca vômitos e diarréia, isso não quer dizer que os

processos digestivos dos alunos estejam doentes. Quer dizer que o cozinheiroprofessor

desconhece os segredos do sabor. A educação é uma arte. O educador é

um artista. Aconselho os professores a aprender seu ofício com as cozinheiras”

(Rubem Alves)

Esse reencontro me faz pensar exatamente naquilo que o grande mestre Rubem Alves

escreve na introdução de seu livro “Entre a Ciência e a Sapiência”, ou seja, na grande

paixão que tenho pela educação. Emoção gratuita, sem explicações, de onde surge toda a

beleza do mundo. Não tenho a mesma experiência de Rubem Alves, a quem admiro pela

franqueza e sinceridade em assuntos que a academia parece temer e que, por isso,

despreza.

Acho até que, guardadas as devidas proporções, todas as experiências, quando vividas

com ternura, profundidade e paixão merecem ser consideradas e partilhadas, mesmo

quando são provenientes de pessoas mais jovens, como é o meu caso. Mas, voltando ao

mestre e a sua obra, devo dizer que o longo caso de amor vivido por ele com a educação é

facilmente perceptível ao longo de todos os textos que compõem “Entre a Ciência e a

Sapiência” e também em praticamente todos os seus outros livros e artigos.

O mais interessante nisso tudo é que é muito difícil falar de um amor tão grande sem ser

piegas ou meloso. Rubem Alves consegue fazer isso de forma a atrair a atenção dos

leitores pela inteligência de seus argumentos e das histórias que conta. Não quer

comprovar cientificamente que a educação vai muito além dos livros, dos cálculos, das

fórmulas, dos fatos ou das concordâncias. Sabe que ela se estabelece na busca do

aperfeiçoamento, da sabedoria, mas não despreza o fator humano, o professor e o aluno.

Sobre cientistas e pescadores (As semelhanças não são mera coincidência...)

“Os pescadores-fabricantes de redes se organizaram numa confraria. Para se

pertencer à confraria era necessário que o postulante soubesse tecer redes e que

apresentasse, como prova de sua competência, um peixe pescado com as redes que

ele mesmo tecera. Mas uma coisa estranha aconteceu. De tanto tecer redes, pescar

peixes e falar sobre redes e peixes, os membros da confraria acabaram por esquecer

a linguagem que os habitantes da aldeia haviam falado sempre e ainda falavam.

Puseram, no seu lugar, uma linguagem apropriada às suas redes e os seus peixes, e

que tinha de ser falada por todos os seus membros, sob pena de expulsão”. (Rubem

Alves)

Sua coragem se revela em textos articulados em que se dirige ao já falecido Roberto

Marinho (que poderiam ser endereçados a seus sucessores) ou ao ministro da educação

(de onde retirei o trecho que inaugura esse artigo) falando do real compromisso que

deveriam assumir perante o país. Afinal de contas, estamos lidando com o “software”

nacional, ou seja, com a produção da inteligência necessária para realmente melhorar o

país...

Suas parábolas nos ensinam lições simples, mas cheias de sabor e autenticidade, como no

caso da comparação que tece entre professores e cozinheiros. Mesmo porque,

convenhamos, a aula é um momento todo especial em que temos que colocar nossos

alunos a todo instante diante de novas “provas” (relaciono essa palavra ao provar proposto

pelos grandes chefs da gastronomia), em busca de uma receita toda especial que lhes

convença, que lhes seduza para o que estamos ensinando.

Sua fala é tão pertinente que na continuação do livro encontramos um capítulo dedicado

especialmente aos livros e a leitura. Nesse ínterim é bom lembrar dos ensinamentos de

outro grande e especial educador brasileiro chamado Paulo Freire. Dizia Freire que temos

que aguçar nossos sentidos e ampliar o sentido de leitura, entendendo que ao realizarmos

essa prática não podemos nos restringir ao contato com as páginas de um livro, jornal ou

revista. Temos que ler o mundo.

“Os relojoeiros, ao fazer seus relógios, pensavam apenas nos relógios: queriam

fazer relógios perfeitos, bonitos, obras de arte. Relojoeiros pensam em relógios. Mas

os homens da ciência começaram a ter pensamentos diferentes dos pensamentos

dos relojoeiros ao olhar para os relógios. Os pensamentos deles começaram a dar

grandes pulos, pulos enormes; pularam dos relógios para o universo. Perceberam

que os relógios e o universo se pareciam. Eram máquinas análogas. O relógio era

um universo pequeno. O universo era um relógio grande. E foi assim que o relógio,

de objeto criado para medir horas, passou a ser, de repente, modelo do universo.

Assim, para compreender o universo bastava compreender os relógios”. (Rubem

Alves)

A leitura do mundo depreende a comunicação total, em que todos os sentidos estão

atentos, captando os sinais emitidos pela música ou pelo som das ruas, pela expressão

das pessoas tanto quanto a partir daquilo que falam, das imagens de um filme que

assistimos ou das notícias impressas no jornal diário ou mesmo dos relacionamentos que

estabelecemos com nossos amigos, irmãos, maridos, esposas, alunos,...

Rubem Alves vai além ao dizer que “Ler é uma virtude gastronômica” pois “requer uma

educação da sensibilidade, uma arte de discriminar os gostos”. O engraçado é que as

palavras sensibilidade e gosto são tão refutadas nos ensaios, artigos, estudos, teses ou

monografias produzidas pelas universidades...

Falando nisso, o livro “Entre a Ciência e a Sapiência” também discute a ciência e seus

caminhos (ou dilemas?). Relação estranha essa que se estabelece entre educação e

ciência. Para mim são como irmãs, nascidas do mesmo pai e da mesma mãe, o

conhecimento e a curiosidade, separadas no nascimento, que se reencontram alguns anos

depois e que parecem ter alguma incompatibilidade de gênio, de comportamento. O que

deveria ser um casamento bem ajustado, cheio de paixão e romance, é abalado por uma

comunicação precária, pela arrogância que brota de ambos os lados ou mesmo por

dogmas ou pretensões por parte de cientistas e educadores...

Penso que a ciência pode ser considerada uma linguagem, muito específica, muito própria.

Como a rede da metáfora contada por Rubem Alves em seus textos. Os pescadores que

aprenderam a usar essa ferramenta não parecem dispostos a partilhar esse conhecimento

com outras pessoas da comunidade. Fecham-se em suas próprias conchas e criam clubes

particulares. Dizem que muitas pessoas não teriam condições de entender direito aquilo

que pensam. Será? Ou será que, por outro lado, se fizermos uma socialização desse

instrumental não estaremos ampliando as possibilidades da pesca e alimentando um

número muito maior de pessoas a um custo muito menor?

Abrir os ouvidos é uma das dicas dadas pelo mestre Rubem Alves em seus textos

destinados aos cientistas. Escutar o som que vem do coração, da voz simples daqueles

que não são como eles, pescadores especializados. Há muita riqueza e sabedoria

brotando das experiências mais singelas...

Para terminar seu trabalho, Rubem Alves fala um pouco dessa confusa e apaixonante

relação dos homens com a tecnologia. Fala de relógios e de computadores. Lembra como

fomos enfeitiçados pelo tique-taque dos relógios a ponto de transformarmos nossa vida

numa corrida incessante atrás dos ponteiros dessa máquina incrível. Transporta essa

analogia alguns anos adiante e encontra paralelos entre essa estranha relação entre

homens e relógios e aquela que se estabelece a cada novo dia entre a humanidade e os

computadores. Será que algum dia George Orwell e Aldous Huxley terão razão? Espero,

sinceramente, que não...

Obs.: Orwell escreveu “1984” e Huxley “Admirável Mundo Novo” em que olham para o

futuro e discorrem a respeito de uma sociedade em que será difícil diferenciar homens e

máquinas. O sentimento terá sido praticamente sepultado entre nós...
Artigo de Joao Luis de Almeida  Prado   
Planeta Educação

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